Relembrando uma alma verdadeiramente grande

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Editorial do The Nation

O centenário de nascimento de Buddhadasa seria melhor celebrado voltando a seus ensinamentos sobre a essência do Buddhismo.

Há um grande desafio na atual comemoração de um dos mais venerados monges buddhistas da Thailândia, Buddhadasa Bhikkhu. A questão é como podemos evitar manchar, ingenuamente talvez, seus ensinamentos essenciais neste processo. Se Buddhadasa for levado realmente a sério, esta é uma ocasião para “não” pensar nele. Esta não é uma ocasião para alguns pensarem que são “seus” discípulos, nem recitar seu conhecimento com propósito pessoal. E esta é a ocasião para ficar longe dos símbolos, ritos ou rituais. Para lembrar-se dele, esta é a ocasião de voltar radicalmente à essência do Buddhismo – sem todos os padrões que têm o potencial para nos iludir. Este é o momento para deixar tudo passar.

Controverso, sim. Mas também simples. Interpretando os principais ensinamentos do Senhor Buddha, Buddhadasa propôs a famosa e provocativa doutrina “eu/meu” (tua ku, khong ku). O quanto ela contradiz “eu penso, logo existo”, e qual escola é a correta, está aberto ao debate, mas este Buddhismo fundamental está baseado na convicção de que todos os sofrimentos humanos se iniciam com nossa ilusão ou ignorância sobre o “eu”. Tornamo-nos possuídos pela ganância, pela cobiça, pela raiva e assim por diante, porque de alguma maneira pensamos erroneamente que “nós” somos “permanentes”. Esta escola ensina que, em realidade, não há nada tal qual um eu, que faz parte do mundo físico, que está constantemente em um estado de fluxo. Não há nada permanente neste universo, e a ignorância da interdependência natural de todas as coisas, alimenta um ciclo contínuo de sofrimento em nossas vidas. Se pudermos superar a atitude de “eu/meu”, poderemos, então, quebrar o ciclo de sofrimento.

Alguém pode discutir ou não aceitar a idéia, mas a busca espiritual de Buddhadasa era honorável e inquestionável. Em 1932, enquanto um vento de transformação política varria a capital tailandesa, algo igualmente significativo estava ocorrendo em um lugar remoto ao sul. Um monge não-ortodoxo chamado Phra Indapanno Bhikkhu embarcava em uma longa e árdua viagem, a fim de alcançar e cultivar a real essência do Buddhismo. Ele decidiu permanecer em um santuário deserto no distrito de Chaiya, em Surat Thani. O vestíbulo dilapidado com uma estátua de Buddha em pedaços se tornaria o renomado Suan Mokkhabalarama, onde um dos maiores discípulos thailandeses do Senhor Buddha disseminou um conhecimento inestimável a centenas de milhares, talvez milhões.

O dia de ontem (27.05.2006) marcou o centenário de seu nascimento. Mas entender a essência de Buddhadasa requer reflexão sobre os eventos e a controvérsia que cercam sua morte. Antes de sua morte no dia 8 de julho de 1993, alguns de seus seguidores acusaram os médicos do Hospital de Siriraj de prover tratamento ao monge contra sua vontade. Buddhadasa tinha feito conhecida sua intenção de não permitir o uso da tecnologia moderna para prolongar sua vida. Seu desejo de morrer pacífica e naturalmente quase foi interrompido por um alvoroço onde o “eu/meu” ironicamente tomaram o palco central.

“Você pode ser um crente ardente de certa fé, e ainda assim ser totalmente ignorante sobre ela,” Buddhadasa disse uma vez. Isso foi dirigido a seus auto-proclamados “discípulos” e a muitos monges ordinários que ainda se favoreciam com o materialismo, e eram muito apegados ao “ego”. E, quando certa figura política poderosa, possuidora de enorme riqueza, afirmou recentemente que também era seu seguidor, a declaração [de Buddhadasa] sobre a ignorância total não pôde achar um testemunho melhor.

A não-ortodoxia de Buddhadasa o sujeitou ao escrutínio e ao ridículo de conservadores. Foi rotulado “louco” uma vez, e até mesmo de “comunista”. Mas seus seguidores aumentaram, e ele viajou extensivamente ao redor do mundo para defender um estilo de vida não-materialista, e espargir seu ensinamento revolucionário de como fazer a “vida de hoje” melhor, no lugar de esperar outra chance no céu ou no inferno. Seu último não dito sermão, ressoou durante as últimas fases de sua doença terminal: a morte não é nada a ser temida, e os seres humanos deveriam enfrentar essa parte natural do processo da vida com a compreensão sem preconceitos da “impermanência”.

Quando ele foi baixado em seu caixão no Wat Suan Mokkh, no dia 8 de julho de 1993, aos 87 anos, ele simbolicamente se tornou o que tinha ensinado às pessoas serem durante tanto tempo – em harmonia com natureza.

© 2006 tradução de Sérgio Alvarez, para a Comunidade Nalanda, http://buddhadasa.nalanda.org.br

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