Os Três Monges

Date May 11, 2013

Os Três Monges

Os Três Monges

Primeiro monge: “Qualquer tarefa, eu digo, que seja para o bem comum, essa devemos nos esforçar rapidamente para pagar completamente nossas dívidas para com o dharma e para com a nação”. Segundo monge: “O apego a objetos, eu digo, causará tédio e passará: a sabedoria traz o insight – ganância, ira e ilusão se vão, e isso cessará a roda do Samsara”. Terceiro monge: “Não se atrasem, meus amigos, eu digo, qualquer trabalho à frente, apressem-se por completá-lo, não negligenciem: Uma pesada carga de trabalho pode bem encurtar nossa vida, mas todos descansaremos de qualquer forma”.

Três Resoluções

Date August 13, 2012

Três Resoluções de Buddhadasa Bhikkhu

1. Ajudar todos a penetrar no coração de sua própria religião.
2. Criar um bom entendimento mútuo entre todas as religiões.
3. Trabalhar juntos para retirar o mundo do materialismo.

Obras em inglês

Date July 25, 2012

Algumas de suas obras traduzidas para a língua inglesa

Título Tradutor Ano de Publicação
Handbook
For Mankind
Ariyananda Bhikkhu (Roderick Bucknell), de um conjunto de palestras proferidas em 1956 1961
Towards Buddha-Dhamma ed. & tr. Nagasena Bhikkhu (condensed) 1964
Dhamma: The World Saviour Dr. Saiyude Punaratabhandhu 1965
No Religion Bhikkhu Punno 1967
Christianity & Buddhism vários tradutores, das Palestras Siclaire Thompson Memorial de 1967 1968
Another Kind of Birth Ariyananda Bhikkhu (Roderick Bucknell) 1969
Exchanging Dhamma While Fighting Nagasena Bhikkhu 1969
In Samsara Exists Nibbana Thawee Sribunruang 1970
Buddha-Dhamma For Students Ariyananda Bhikkhu (Roderick Bucknell), a partir de duas palestras em 1966 1972
The Meditative Development of Mindfulness of Breathing Stephen R. Schmidt, de uma palestra em 13.08.1972 1982
Buddhism in 15 Minutes H. G. Grether 1976
Conserving the Inner Ecology 3.11. 1977
Anapanasati-Bhavana Bhikkhu Nagasena, de uma série de palestras em 1959 1980
The A, B, C of Buddhism Stephen R. Schmidt 1982
Heartwood From The Bo Tree Dhammavicayo de palestras dadas em 1961 1984
Paticca-Samuppada: Practical Dependent Origination Steven Schmidt, de uma palestra dada em 1978 1986
The 24 Dimensions of Dhamma Suny Ram-Indra, de uma palestra dada em 13.07, 1965 1986
Dhammic Socialism ed. Donald Swearer (various translators) 1986
The Natural Cure for Spiritual Disease 1986
Mindfulness With Breathing: Unveiling the Secrets of Life Santikaro Bhikkhu, principalmente a partir de palestras dadas em 1986 1988
Mindfulness with Breathing: Getting Started Santikaro Bhikkhu
Keys To Natural Truth Santikaro Bhikkhu & Roderick Bucknell 1988
Comments on Education 29.03.1988
Nibbana for everyone 3.04.1988
A Single Solution for All the World Problems Ariyananda Bhikkhu (Roderick Bucknell) 6.04.1988
Let’s Become a Buddhadasa 6.04.1988
Kamma in Buddhism 7.04.1988
Help! The Kãlãmasutta, help! 6.05.1988
Two Kinds of Language Ariyananda Bhikkhu (Roderick Bucknell) 1988
Looking Within 1988
Happiness and Hunger 1988
The Dhamma Truth of Samatha-Vipassana for the Nuclear
Age
1988
The Prison of Live 10.2.1988
Me and Mine ed. D K Swearer 1989
The Buddha’s Doctrine of Anatta Dr. Mongkol Dejnakarintra, et al., de livro publicado em 1939 1990
A Buddhist Charter Mongkol Dejnakarintra & Somsri Thammasarnsophon, de palestrada dada em 1982 1990
The First Ten Years In Suan Mokkh Mongkol Dejnakarintra, de um artigo de 1943 1990
Messages of Truth from Suan Mokkh Mongkol Dejnakarintra, et al. 1990
Evolution/Liberation #1 Santikaro Bhikkhu ?
Evolution/Liberation #2 Santikaro Bhikkhu 1987
Evolution/Liberation #3 Santikaro Bhikkhu 1988
Evolution/Liberation #4 Santikaro Bhikkhu 1990
Evolution/Liberation #5 Santikaro Bhikkhu 1991
Some Marvellous Aspects of Theravada Buddhism 1991
AgriDhamma – The Duty of Professional Agriculturists 25.3.1991
Heartwood of the Bodhi Tree rev. & ed. Santikaro Bhikkhu 1994
Why Were We Born? Ariyananda Bhikkhu (Roderick Bucknell) 1995
India’s Benevolence to India (Thailand?) Karuna Kusalasaya, de uma palestra dada em 1990 199?
Technique For Living
The Real Paticca-Samuppada
Food for Thought
Forest Wat Wild Monks
The Style of Practice at Suan Mokkh
The Right Approach to Dhamma
Thoughts & Experiences Poonsiri Phanumphai & Santikaro Bhikkhu 2001
Thoughts & Experiences
Thoughts & Experiences
On Nibbana (from his notebooks)
On Mindfullness (from his notebooks)
Buddhadasa Never Dies (poem)
Don’t Be Shamed By The Chickens (poem)
The Supreme Buddhist Mantra (poem)
Note Cards from 1937 – 38

(adaptado de: Buddhadasa Bhikkhu)

Meus agradecimentos especiais a Werner Liegl pela permissão em usar sua pesquisa.

As Quatro Moradias Divinas: Amizade, Compaixão, Alegria Apreciativa e Equanimidade

Date July 16, 2012

~ por Ven. Ajahn Buddhadasa

Quando não há nenhum egoísmo, nada é prejudicado. Somente removendo o egoísmo, toda a violência e exploração podem ser destruídos. Quando não há nenhum egoísmo, não há nenhum mal a nós mesmos e aos outros, nem sequer os animais são prejudicados. Nós podemos ir longe e dizer que até mesmo o solo, o chão, a terra, não são prejudicados quando o egoísmo é afastado.

Quando este egoísmo é extinto, quando não houver nada disto prejudicando, então fica natural se relacionar com os outros em termos do que é chamado as Quatro Moradias Divinas – Amizade, Compaixão, Alegria Apreciativa e Equanimidade. Esta é a base para a felicidade no Dhamma.

Aqueles de vocês que valorizam este ensinamento das Quatro Moradias Divinas – metta, karuna, mudita e upekkha – deveriam focar nisto para extinção do egoísmo.

Se você está interessado em metta: amor universal ou amizade; karuna: compaixão; mudita: alegria apreciativa e upekkha: equanimidade, então tudo que você precisa fazer é direcionar sua atenção para o desinteresse ou abnegação.

Quando não há nenhum egoísmo então há metta automaticamente, há este amor muito espontâneo por todas as coisas. Há karuna espontâneo, o desejo em ajudar, ser útil ou compassivo. Há mudita espontâneo, alegria com a felicidade dos outros; e há upekkha espontâneo, quando não é possível ajudar neste momento então, com upekkha, espera-se pela oportunidade em ajudar e servir.

Algumas pessoas entendem essa última Moradia Divina incorretamente. Elas tomam upekkha como significando ser indiferente quando não pudermos fazer nada para ajudar. Upekkha verdadeiro é observar e esperar uma oportunidade para ajudar, se não houver no momento nenhuma forma de fazê-lo.

Assim, se você valoriza esses quatro Brahma Viharas, essas quatro Moradias Divinas, então foque sua atenção em não ser egoísta.

Esse último Brahma Vihara é frequentemente uma fonte de confusão. Upekkha quer dizer ‘olhar para’, ‘observar, ‘vigiar’. Algumas pessoas pensam que isto significa fechar nossos olhos e não prestar atenção, ser indiferente. Isso é tolo e não tem nenhum valor ou benefício. Upekkha quer dizer ‘olhar para’, ‘observar’.

Se todos no mundo continuassem procurando oportunidades para ajudar aos outros, oportunidades para servir, então não haveria nenhuma destas crises de hoje.

Então, por favor, sejam especialmente interessados por upekkha, olhando, observando por oportunidades em ajudar e servir.

Relembrando uma alma verdadeiramente grande

Date April 12, 2012

Editorial do The Nation

O centenário de nascimento de Buddhadasa seria melhor celebrado voltando a seus ensinamentos sobre a essência do Buddhismo.

Há um grande desafio na atual comemoração de um dos mais venerados monges buddhistas da Thailândia, Buddhadasa Bhikkhu. A questão é como podemos evitar manchar, ingenuamente talvez, seus ensinamentos essenciais neste processo. Se Buddhadasa for levado realmente a sério, esta é uma ocasião para “não” pensar nele. Esta não é uma ocasião para alguns pensarem que são “seus” discípulos, nem recitar seu conhecimento com propósito pessoal. E esta é a ocasião para ficar longe dos símbolos, ritos ou rituais. Para lembrar-se dele, esta é a ocasião de voltar radicalmente à essência do Buddhismo – sem todos os padrões que têm o potencial para nos iludir. Este é o momento para deixar tudo passar.

Controverso, sim. Mas também simples. Interpretando os principais ensinamentos do Senhor Buddha, Buddhadasa propôs a famosa e provocativa doutrina “eu/meu” (tua ku, khong ku). O quanto ela contradiz “eu penso, logo existo”, e qual escola é a correta, está aberto ao debate, mas este Buddhismo fundamental está baseado na convicção de que todos os sofrimentos humanos se iniciam com nossa ilusão ou ignorância sobre o “eu”. Tornamo-nos possuídos pela ganância, pela cobiça, pela raiva e assim por diante, porque de alguma maneira pensamos erroneamente que “nós” somos “permanentes”. Esta escola ensina que, em realidade, não há nada tal qual um eu, que faz parte do mundo físico, que está constantemente em um estado de fluxo. Não há nada permanente neste universo, e a ignorância da interdependência natural de todas as coisas, alimenta um ciclo contínuo de sofrimento em nossas vidas. Se pudermos superar a atitude de “eu/meu”, poderemos, então, quebrar o ciclo de sofrimento.

Alguém pode discutir ou não aceitar a idéia, mas a busca espiritual de Buddhadasa era honorável e inquestionável. Em 1932, enquanto um vento de transformação política varria a capital tailandesa, algo igualmente significativo estava ocorrendo em um lugar remoto ao sul. Um monge não-ortodoxo chamado Phra Indapanno Bhikkhu embarcava em uma longa e árdua viagem, a fim de alcançar e cultivar a real essência do Buddhismo. Ele decidiu permanecer em um santuário deserto no distrito de Chaiya, em Surat Thani. O vestíbulo dilapidado com uma estátua de Buddha em pedaços se tornaria o renomado Suan Mokkhabalarama, onde um dos maiores discípulos thailandeses do Senhor Buddha disseminou um conhecimento inestimável a centenas de milhares, talvez milhões.

O dia de ontem (27.05.2006) marcou o centenário de seu nascimento. Mas entender a essência de Buddhadasa requer reflexão sobre os eventos e a controvérsia que cercam sua morte. Antes de sua morte no dia 8 de julho de 1993, alguns de seus seguidores acusaram os médicos do Hospital de Siriraj de prover tratamento ao monge contra sua vontade. Buddhadasa tinha feito conhecida sua intenção de não permitir o uso da tecnologia moderna para prolongar sua vida. Seu desejo de morrer pacífica e naturalmente quase foi interrompido por um alvoroço onde o “eu/meu” ironicamente tomaram o palco central.

“Você pode ser um crente ardente de certa fé, e ainda assim ser totalmente ignorante sobre ela,” Buddhadasa disse uma vez. Isso foi dirigido a seus auto-proclamados “discípulos” e a muitos monges ordinários que ainda se favoreciam com o materialismo, e eram muito apegados ao “ego”. E, quando certa figura política poderosa, possuidora de enorme riqueza, afirmou recentemente que também era seu seguidor, a declaração [de Buddhadasa] sobre a ignorância total não pôde achar um testemunho melhor.

A não-ortodoxia de Buddhadasa o sujeitou ao escrutínio e ao ridículo de conservadores. Foi rotulado “louco” uma vez, e até mesmo de “comunista”. Mas seus seguidores aumentaram, e ele viajou extensivamente ao redor do mundo para defender um estilo de vida não-materialista, e espargir seu ensinamento revolucionário de como fazer a “vida de hoje” melhor, no lugar de esperar outra chance no céu ou no inferno. Seu último não dito sermão, ressoou durante as últimas fases de sua doença terminal: a morte não é nada a ser temida, e os seres humanos deveriam enfrentar essa parte natural do processo da vida com a compreensão sem preconceitos da “impermanência”.

Quando ele foi baixado em seu caixão no Wat Suan Mokkh, no dia 8 de julho de 1993, aos 87 anos, ele simbolicamente se tornou o que tinha ensinado às pessoas serem durante tanto tempo – em harmonia com natureza.

© 2006 tradução de Sérgio Alvarez, para a Comunidade Nalanda, http://buddhadasa.nalanda.org.br

Remembering a truly great soul

Date April 12, 2012

Buddhadasa’s birth centenary would be best celebrated by returning to his teachings on the essence of Buddhism

 There’s one big challenge in the ongoing commemoration of one of Thailand’s most revered Buddhist monks, the late Buddhadasa Bhikkhu. It’s the question of how we can avoid breaching, naively perhaps, his core teachings in the process. If Buddhadasa is to be taken really seriously, this is an occasion to “not” think about him. This is not an occasion for anyone to think he or she is “his” disciple, nor to recite his knowledge for personal purpose. And this is the occasion to stay away from symbols, rites or rituals. To remember him, this is the time to take to the essence of Buddhism with extremism – without all the mediums that have the potential to delude us. This is the time to let everything go.

Controversial, yes. But it’s also simple. Interpreting the Lord Buddha’s focal teachings, Buddhadasa came up with the famous and provocative “myself/mine” (tua ku, khong ku) doctrine. How much it contradicts “I think, therefore I am”, and which school is right, is open to debate, but this Buddhist fundamental is based on the belief that all human suffering starts with our misconception or ignorance about “self”. We become possessed with greed, lust, anger and so on because somehow we are mistaken that “we” are “permanent”. This school teaches that, in reality, there is no such a thing as the self, which is part of the corporeal world that is constantly in a state of flux. There is nothing permanent in this universe, and ignorance of the natural interdependence of all things feeds an ongoing cycle of suffering in our lives. If we can overcome the “myself/mine” mindset, we can then break out of the cycle of suffering.

One can argue or dispute the belief, but Buddhadasa’s spiritual quest was honourable and unquestionable. In 1932, as a wind of political change was sweeping the Thai capital, something as significant was happening in a remote corner of the South. An unorthodox monk named Phra Indapanno Bhikkhu was embarking on a long, arduous journey to reach and foster the real essence of Buddhism. He decided to stay in a deserted shrine in Surat Thani’s Chaiya district. The ramshackle hall housing a crumbling Buddha statue would become the renowned Suan Mokkhabalarama, where one of the greatest Thai disciples of Lord Buddha disseminated priceless knowledge to hundreds of thousands, perhaps millions.

Yesterday marked his birth centenary. But to get to Buddhadasa’s essence requires reflecting upon the events and controversy surrounding his death. Before he died on July 8, 1993, some of his followers accused Siriraj Hospital doctors of providing medical treatment to the monk against his will. Buddhadasa had made known his intention not to allow the use of modern technology to prolong his life. His wish to die peacefully and naturally was almost disrupted by an uproar where “myself/mine” ironically took the centre stage.

“You can be an ardent believer of a certain faith and yet be totally ignorant about it,” Buddhadasa once said. It was directed at both his proclaimed “disciples” and many mainstream monks who still indulged themselves with materialism and were still very much attached to the “ego”. And when a certain powerful political figure, who possesses enormous wealth, declared recently that he was also a follower of his, the statement about total ignorance could not find a better testament.

Buddhadasa’s unorthodoxy subjected him to conservatives’ scrutiny and ridicule. He was once dubbed “mad”, and even “communist”. But his following swelled, and he travelled extensively throughout the world to advocate a non-materialistic lifestyle and spread his revolutionary teaching on how to make “today’s life” one’s best, instead of expecting another chance in heaven or hell. His last, unspoken sermon resounded during the last stages of his final illness: Death is nothing to be afraid of and human beings should face this natural part of life’s process with the unprejudiced understanding of “impermanence”.

When he was lowered into his coffin at Wat Suan Mok on July 8, 1993, aged 87, he symbolically became what he had long taught people to be – in harmony with nature.

O Pranayama do Buddha

Date March 28, 2012

Antes da época do Buddha, as pessoas praticavam muitos tipos de pranayama. Quando o Senhor Buddha surgiu, ele também praticou pranayama; e então ele incorporou-o em seu sistema de contemplação por meio da respiração [anapanasati]. E através deste sistema de contemplação por meio da respiração, nós colocamos em ordem a vida e o corpo.

Existem muitas vantagens e benefícios no pranayama que não estão diretamente relacionados com a religião ou com o Dhamma. Esses benefícios adicionais podem incentivá-lo em relação ao pranayama ou controle da respiração e encorajá-lo a desempenhá-lo corretamente.

Primeiramente você pode estender sua vida através da prática do pranayama. Ou você pode induzir sua morte imediatamente, mesmo hoje, se você o quiser. De fato, com a prática do pranayama você pode morrer em qualquer respiração que escolher.

Por outro lado, você pode ter uma respiração saudável e um corpo bom e saudável com o pranayama.

Você pode praticar esportes, dirigir, trabalhar no escritório, ou no que quiser se você regular a respiração ou prana de modo a estar de acordo com seus objetivos.

Saiba que estes são alguns dos benefícios colaterais do anapanasati, além do escopo da religião ou do próprio Dhamma.

~Buddhadasa Bhikkhu, Mindfulness with Breathing.

Além do Bem e do Mal

Date March 21, 2012

As formas mais inferiores do mal originam-se e são fortalecidas pelo desejo de ter ou ser. Formas mais moderadas do mal consistem de ações menos fortemente motivadas pelo desejo, e toda a bondade consiste de ações baseadas nas mais finas e tênues espécies de desejo, o desejo de ter ou ser em um nível adequado, bom. O bem, mesmo em suas formas mais elevadas, está baseado no desejo que, contudo, é tão refinado e tênue que as pessoas não o consideram como algo ruim. O fato, porém, é que a boa ação não pode nunca trazer a completa libertação do sofrimento. Uma pessoa que se torna completamente livre do desejo, isto é, um arahant, é a pessoa que cessa de agir com base no desejo e, por isso, torna-se incapaz de fazer algo maléfico. Suas ações estão além das categorias de bem ou mal. Sua mente é livre e transcende as limitações do bem e do mal. Em consequência, é completamente livre do sofrimento.

Esse é o princípio fundamental do Buddhismo. Não importa se somos capazes ou se desejamos seguir esse caminho, essa é a maneira de nos libertar do sofrimento. Pode ser que hoje não desejemos segui-lo, mas algum dia, certamente, vamos querer segui-lo. Quando abandonarmos completamente o mal e fizermos o bem, no mais elevado grau, a mente ainda será aflita por vários tipos de desejos atenuados, e não há nenhum meio conhecido de se desfazer deles, a não ser lutar para se colocar acima do poder do desejo, ir além do desejo de possuir ou ser algo, ruim ou bom. Se existe o Nibbana, a libertação do sofrimento de toda espécie, então deve haver absoluta e completa ausência do desejo.

© Edições Nalanda, do livro de Ajahn Buddhadasa. “A causa do sofrimento na perspectiva buddhista”. Trad. Ricardo Sasaki. Edições Nalanda: Belo Horizonte, 1998. p. 42/43.

À procura daquele esquivo senso de desapego…

Date March 13, 2012

por Thanong Khanthong, The Nation, May 26, 2006

Bangkok, Thailândia — 27 de maio marcará o centenário de nascimento de um dos mais veneráveis monges buddhistas da Thailândia – Buddhadasa Bhikkhu, que morreu em 1993. Seus ensinamentos sobre o Buddhismo, entretanto, ainda têm imensa influência sobre os intelectuais thailandeses e buddhistas em geral, os quais se esforçam para captar a essência do Buddhismo em sua forma mais pura.

Lembro-me claramente de meu primeiro e único encontro com Buddhadasa. Há quase 20 anos, eu acompanhei um pequeno grupo de pessoas até Surat Thani, onde Buddhadasa fundou o seu Suan Mokkh em 1932, aos 23 anos de idade. Suan Mokkh é um dos numerosos “wat pa”, ou templos na selva, na Thailândia, excluídos de todas as tentações mundanas, de forma que monges e leigos buddhistas possam concentrar-se inteiramente no aprendizado e busca do caminho da salvação, como detalhado por nosso Mestre Buddha. Ficou claro, desde o primeiro instante, que Buddhadasa estava determinado a aprender e descobrir o Buddhismo a seu próprio modo.

Chegamos tarde da noite a Suan Mokkh e fomos levados a uma das casinhas de madeira para descansar. Frugalidade era o modus vivendis ali. Verdes árvores se espalhavam por todo o lugar. Fomos instruídos a nos levantar muito cedo de manhã para ouvir os ensinamentos de Buddhadasa e discutir com ele quaisquer assuntos concernentes ao Buddhismo. Estava um breu. Não ousamos olhar para fora da janela nem nos venturamos a sair, por medo de divisar fantasmas.

Na manhã seguinte, aproximadamente às cinco horas da manhã, fomos acordados e levados para ver Buddhadasa. Seu alojamento aparentava também simplicidade e frugalidade, sem nenhuma decoração. Sentamo-nos ao chão, do lado de fora, e não muito tempo depois ele apareceu, corpulento e austero, munido de seus óculos pretos espessos. Então ele se acomodou confortavelmente numa cadeira de mármore e começou a nos cumprimentar, casualmente. Não consigo me lembrar de toda a conversa aquele dia, mas recordo-me de ter-lhe feito uma pergunta.

“Se todos nos esforçamos para alcançar a salvação, então como devemos tratar as obras primas produzidas por gênios como Mozart e Beethoven?”, perguntei.

Buddhadasa replicou: “As artes são, meramente, invenções mundanas de seres humanos.” Não me lembro o que ele disse além dessa sentença, mas sua maneira de ser parecia muito desapegada de todos nós.

Tenho que confessar que, naquele momento, fiquei meio desapontado com a sua resposta. Na época, eu achava que não era característico do Buddhismo repudiar as maiores realizações artísticas da humanidade. Bach compôs música sacra maravilhosa para celebrar Jesus Cristo. Da mesma forma, há muitas incríveis peças de arte buddhistas, retratando a vida do Mestre Buddha.

Eu não poderia ter entendido àquela época que estávamos falando de assuntos diversos – do universal e do particular. Ele era um monge iluminado, consciente da natureza transitória do mundo e desapegado de todos os desejos mundanos ao ponto da completa negação de si mesmo. Qualquer assunto, cujo foco não fosse o término do sofrimento, ou o esforço para se alcançar a verdade última era de importância secundária, ou representava, simplesmente, a manifestação de desejos mundanos.

Sem dúvida alguma, Buddhadasa foi um monge reformista. Ele procurou expor a essência do Buddhismo, seguindo estritamente as escrituras do Buddha e desfazendo-se de todo rito ou ritual. Ele chegou à conclusão simples de que a salvação do sofrimento encontra-se no coração do Buddhismo. Qualquer coisa para além desse objetivo singular de alcançar a salvação do sofrimento era irrelevante.

Ele descobriu que o Mestre Buddha desencorajava qualquer assunto que inibisse a saga de alcançar a salvação. Por exemplo, perguntava-se, freqüentemente, ao Mestre Buddha aonde os seres humanos iam após a morte. Eles iriam para o céu ou para o inferno? O Mestre Buddha tratava desses assuntos como irrelevantes e concentrava-se em ensinar os fundamentos da cessação do sofrimento.

Buddhadasa tentou seguir os passos do Mestre Buddha, indo direto à essência do Buddhismo sem o auxílio de nenhum dos rituais. Ele propôs a famosa doutrina do “mim/meu” (“tua ku, khong ku”). Todo sofrimento humano começa com nossa concepção errônea ou ignorância a respeito do ‘eu’. Presumimos que o ‘eu/self’ existe. Por isso nos sentimos alegres quando conseguimos o que queremos. Nos sentimos tristes quando nos separamos de nossos amados ou quando não conseguimos o que queremos. Todos os nossos desejos são criados pela ignorância do ‘eu’, que reage aos sentidos. Mas, na verdade, não há tal coisa como o “self” (eu), que é parte do mundo corpóreo que está em constante estado de fluxo. Não há nada permanente neste universo.

Buddhadasa explicou que se conseguirmos superar a programação mental mim/meu, poderemos então sair fora do ciclo de sofrimento. Podemos realizar a iluminação a qualquer momento do tempo – a todo minuto, a todo segundo do dia – se abordarmos o mundo como ele é, sem nenhum envolvimento do ‘eu’.

Porque Buddhadasa negava todos os ritos e rituais associados ao Buddhismo, ele não era popular junto ao povo em geral. A maioria dos thailandeses amontoam-se perto de monges famosos para obter bençãos para suas vidas. Eles gostam de ter água benta borrifada sobre suas cabeças ou ganhar amuletos do Buddha, de monges famosos, para incrementar sua sorte (“duang”) ou recuperar-se de seus infortúnios. Eles praticam ações meritórias porque acreditam que viverão melhor na próxima vida.

Ao celebrarmos a vida de Buddhadasa, devemos encontrar tempo para voltar a ler um de seus muitos livros sobre a doutrina mim-meu. Se pudéssemos praticar metade do que Buddhadasa nos ensinou, os thailandeses levariam vidas mais significativas, livres da hostilidade, tal qual a estamos experimentando agora com a polarização política atual.

© 2006 tradução de Rosana Lucas, para a Comunidade Nalanda,

http://buddhadasa.nalanda.org.br

In search of that elusive sense of detachment …

Date February 27, 2012

by Thanong Khanthong, The Nation, May 26, 2006

Bangkok, Thailand — May 27 will mark the centenary of the birth of one of Thailand’s most venerable Buddhist monks – Buddhadasa Bhikku, who passed away in 1993. But his teachings on Buddhism still have a huge influence on Thai intellectuals and Buddhists in general who strive to grasp the essence of Buddhism in its purest form.

I remember vividly my first and only encounter with Buddhadasa. Almost 20 years ago, I accompanied a small group of people to Surat Thani, where Buddhadasa founded his Suan Mokkha in 1932 at the age of 23. Suan Mokkha is one of the numerous “wat pa”, or temples in the jungle, in Thailand, cut off from all worldly temptations so that the monks and lay Buddhists can concentrate fully on learning and pursuing the path of salvation as laid out by our Lord Buddha. It was clear from the very beginning that Buddhadasa was determined to learn and discover Buddhism by his own way.

We arrived at Suan Mokkha late in the evening and were taken to one of the small wooden houses to rest. Frugality was the way of life there. Green trees were everywhere. We were told to wake up very early in the morning to listen to Buddhadasa’s teaching and discuss any subjects regarding Buddhism with him. It was pitch dark. We dared not look outside the window or venture out for fear of seeing ghosts.

At about 5 o’clock the following morning we were woken up and taken to see Buddhadasa. His lodging also looked very simple and frugal, without any decoration. We sat on the floor outside and before long he appeared with his stout body and grim expression, wearing his thick black glasses. Then he settled comfortably on a marble chair and began to greet us casually. I cannot remember all the conversation on that day but I do remember asking him one question.

“If we all strive for salvation, then how should we treat world’s masterpieces produced by geniuses like Mozart or Beethoven?” I said.

Buddhadasa replied: “Arts are simply worldly inventions of human beings.” I cannot recall what he said beyond that sentence, but his manner seemed very detached from all of us.

I have to confess that at that moment, I was rather disappointed with his answer. I thought then that it was uncharacteristic for Buddhism to repudiate the greatest artistic achievements of mankind. Bach wrote marvelous church music to celebrate Jesus Christ. There are also several great Buddhist artworks depicting the life of the Lord Buddha.

I could not have understood then that we were talking about different subjects – the universal and the particular. He was an enlightened monk, who was conscious of the transient nature of the world and was detached from all worldly desires to the point of complete self-denial. Any subject that did not concentrate on ending suffering or striving for the ultimate truth was of secondary importance or simply represented a manifestation of worldly desires.

Without doubt, Buddhadasa was a reformist monk. He sought to expound the essence of Buddhism by strictly following the Buddha’s scriptures and doing away with all the rites or rituals. He came to the simple conclusion that salvation from suffering lay at the heart of Buddhism. Anything beyond this singular aim of achieving salvation from suffering was irrelevant.

He found that the Lord Buddha discouraged any subject that inhibited the quest to achieve salvation. For instance, Lord Buddha was frequently asked where human beings went after their death. Would they go to heaven or hell? Lord Buddha treated these subjects as irrelevant and concentrated on teaching the foundation of ending suffering.

Buddhadasa sought to follow the Lord Buddha’s steps by going directly to the essence of Buddhism without the aid of all the rituals. He came up with the famous “myself/mine” (“tua ku, khong ku”) doctrine. All human suffering starts with our misconception or ignorance about the self. We presume that the self exists. That is why we feel happy when we get what we want. We feel sad when we depart from our lovers or do not get what we want. All of our desires are created by the ignorance of the self, which reacts to the senses. But, in reality, there is no such a thing as the self, which is part of the corporeal world that is constantly in a state of flux. There is nothing permanent in this universe.

Buddhadasa explained that if we can overcome the myself/mine mindset, we can then break out of the cycle of suffering. We can realise enlightenment at any moment in time – every minute, every second of the day – if we approach the world as it is, without any involvement of the self.

Since Buddhadasa denied all rites or rituals associated with Buddhism, he was not popular among the general population. Most Thais flock to famous monks in order to get blessings for their life. They like to have holy water sprinkled on their heads or get Buddha amulets from famous monks in order to further boost their stars (“duang”) or salvage their misfortunes. They make merit because they believe that they will live better in the next life.

As we honour the life of Buddhadasa, we should make the time to go back and read one of his numerous books on the myself-mine doctrine. If we could practice half of what Buddhadasa has taught us, Thais would live more meaningful lives, free of hostility such as we are experiencing now with the current political polarisation.